Páginas Salteadas | A leveza de um bolo de limão e coco, para um domingo em família


«Entraram em confissões, e cada uma revelou os seus sonhos: Amy queria ser uma pintora célere;  Jo, além de possuir muitos livros, queria ter uma pena mágica que transformasse os seus escritos em verdadeiras obras-primas; Meg contentava-se com uma casinha confortável e muitos amigos à sua volta; Beth, mais modesta, queria ficar sempre com o papá e a mamã, mas, se tivesse um piano, melhor!»

O clássico do século XIX da escritora norte-americana Louisa May Acott, As Mulherzinhas, foi o primeiro livro que comecei a colecionar. Na verdade tenho seis edições diferentes, a maioria comprada em alfarrabistas, sendo a minha preferida a que foi traduzida pela Didáctica Editora, impressa em folhas A3 e pincelada de ilustrações vintage. A razão desta procura ? A inesquecível adaptação cinematográfica de 1994 com Winona Ryder, Susan Sarandon, Kirsten Dunst, Claire Danes e Christian Bale, da realizadora Gillian Armstrong. Perdi a conta às vezes em que rebobinei a cassete e que implorei ao meu pai mais uma ida ao clube de vídeo, para alugar o DVD. Dava-me esperança e alento saber que um dia poderia conquistar a minha independência, se me mantivesse fiel aos meus princípios e unida à minha família.

Nascida em 1832 nos arredores de Filadélfia, Louisa May Alcott publicou, aos 37 anos, aquele que é considerado um dos primeiros hinos de emancipação feminina, entoado maioritariamente por Josephine March, personagem vivida na tela de cinema pelas atrizes Katherine Hepburn (1933), June Allyson (1949) e Winona Rider (1994). “Ombros arredondados, mãos e pés grandes, um modo de vestir desmazelado e a aparência incomodada de uma rapariga que se estava rapidamente a tornar numa mulher, o que lhe desagradava”, assim é descrita a maria-rapaz da trama. Rebelde, livre, inconformada, reformista, revolucionária e de temperamento fervilhante, Jo, a irmã de 15 anos, desafia todas as normas sociais vigentes na época. Para Jo, a mulher não devia sujeitar-se às lides domésticas ou aos ideais de beleza propagados, devendo, por sua vez, entregar-se de corpo e alma às artes e ao chamamento do espírito aventureiro, recusando, se necessário, a sua feminilidade.


“Não posso ficar parada o dia inteiro e, como não sou um gato, não gosto de dormir à lareira. Adoro aventuras e vou ver se encontro alguma", argumenta, a páginas tantas, a talentosa Jo. À minha semelhança, é impulsiva e criativa. Enamora-se pela literatura e por peças de teatro, encenando e dramatizando as suas próprias histórias. Não sonha com o dia do casamento nem com o seu primeiro beijo - ao contrário da benjamim da família, a mimada Amy -, mas antes com uma carreira artística em Nova Iorque.

Escrito para um público juvenil, este romance realista narra a história de quatro irmãs adolescentes que vivem na Nova Inglaterra do século XIX, abalada pela Guerra Civil. Meg, Jo, Beth e Amy, tão diferentes entre si, atravessam um período moroso após a partida do progenitor para guerra; experienciam os primeiros problemas económicos no seio familiar, mas nunca se desenlaçam na iminência do caos e da adversidade. O caminho da autodescoberta e a valorização da honestidade são os ensinamentos que nos passam e que nos pedem para guardar numa gaveta especial do coração, que deve ser aberta sempre que a vida nos pedir para abraçarmos as nossas sombras e os nossos medos. O vosso lado solar não dura apenas um segundo, mas a Lua também precisa de ter espaço para crescer, minguar, encher-se de fulgor e renovar-se. 

«Viver é também lutar pela própria felicidade. Ai daqueles que, nessa luta, não veem que nem todos conseguem vencer, e que não dão pelos infelizes que os rodeiam, a quem deveriam estender a mão amiga com espírito fraternal. "Ama o próximo" está escrito no livro que encontraste, esta manhã, debaixo das almofadas. Todas as vossas ações deverão ser inspiradas neste preceito. Não somos ricas, mas não é necessário possuir grandes riquezas para praticar o bem, para ajudar os que sofrem... O vosso almoço foi uma generosa dádiva, mas nem sempre a podereis conceder. Se algum dia vos pedirem para além do limite das vossas posses, tereis de procurar no íntimo dos vossos corações as dádivas que mais agradam a quem sofre. O almoço deu, sem dúvida, o maior prazer aos pequenos Hummel, mas foram os vossos cuidados, o vosso afeto, a vossa alegria de dar, que os fizeram sentir verdadeiramente felizes.»


Este mês, a minha receita do Páginas Salteadas quis-se no lugar onde a minha avó e a Anita na Cozinha me ensinaram a dar forma à vida através da dança dos dedos. 

 A leveza de um bolo de limão e coco

Ingredientes
Seis ovos Matinados
100 ml de óleo de coco Origens
Um iogurte de soja e coco Sojasun
1/2 chávena de sementes de papoila
250 gramas de açúcar de coco Biona
450 gramas de farinha de coco Origens
Dois limões biológicos
Raspas de uma laranja
Duas colheres de chá de fermento
Morangos
Coco ralado biológico Naturefoods

Ao jeitinho do Ninho do Vento
Em primeiro lugar, organizem os ingredientes e os utensílio a utilizar, pré-aquecendo o forno a 180º. Os ovos serão o primeiro ingrediente a ter lugar de destaque nesta aventura pela cozinha. Disponham duas tigelas em cima da bancada, para separarem as gemas das claras. Transformem a parte líquida em macias nuvens brancas, batendo-as em castelo. Concentrem-se agora nas gemas, adicionando-lhes o açúcar de coco, o iogurte de soja e o sumo de dois limões biológicos. Remexam até obterem uma massa cremosa. Já sentem o cheirinho cítrico a invadir a vossa Oficina da Clareira? De seguida mesclem o óleo de coco e as sementes de papoila; voltem a dar uso à batedeira, para que a vossa pasta fique cada vez mais consistente e aprazível. Por fim, adicionem a farinha de coco, o fermento e a raspa de laranja. Envolvam o preparado com um poderoso rapa-tachos, dissolvendo aos poucos as claras em castelo. Untem uma forma redonda com um buraquinho no centro com manteiga biológica, polvilhem com farinha de amêndoa e vertam a massa. Levem ao forno durante 40 minutos. Não se esqueçam do infalível truque das nossas avós: abrir a porta do forno para sentiren um calor no coração e espetar um palito, para saber se a cozedura terminou e se o bolo está no ponto, sem queimaduras. Retirem o bolo da forma ainda quente e coloquem à janela, para que possa arrefecer ao sabor da brisa de primavera. Decorem com coco ralado e morangos acabados de colher. Partam uma fatia (servida numa loiça vintage ajuda a compor o ramalhete) e acompanhem com uma chávena de Macarroba da Iswari, uma mistura de alfarroba, lucuma e maca, que pode ser adicionada a uma bebida vegetal quente. No meu caso optei por avelã.

Acompanhem as receitas das bloggers do projeto Páginas Salteadas:
Catarina Sousa, Joan of July
Vânia Duarte, Lolly Taste
Andreia Moita, Andreia Moita Blog

3 comentários:

  1. Adorei o post, tenho de experimentar essa receita final =)
    Beijinhos,
    http://chicana.blogs.sapo.pt/

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  2. este bolo cheira a tardes em família e isso representa na perfeição o mulherzinhas. beijo grande andorinha

    Vânia
    Lolly Taste

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  3. Aiii esses teus bolos, Joaninha... Mais uma delícia, qualquer dia abres a tua própria pastelaria/casa de chá. Eu seria cliente habitual! :D

    www.joanofjuly.com

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